O tempo quaresmal, que culmina no domingo de Páscoa, é um período de renovação da fé e da espiritualidade. Para muitos, é um tempo de conversão de pensamentos, ideias e de atitudes. Um período propício para dar mais atenção ao próximo e dar ao outro uma oportunidade de recomeçar. E esse é um dos lemas de vida Luíza Oliveira*, de 44 anos, uma missionária de uma igreja cristã da capital. Ela, chegou ao Piauí em 2017 e trouxe consigo a vontade de fazer o bem ao próximo, sobretudo às crianças.

Em Teresina, Luíza iniciou uma busca por instituições em que pudesse realizar ações sociais, para trabalhar com crianças, que é a sua grande alegria. E logo encontrou o programa “Família Acolhedora – Partilhando Cuidado”, que tem como princípio a importância de se oferecer uma segunda chance, de uma nova família para as crianças, que vivem em situações de abuso ou negligência no meio familiar de origem. Os menores são temporariamente removidos do ambiente impossibilitado e passam a ser acolhidas por outra família. Durante a estadia, não só a criança, mas a família de origem passam por um processo de reabilitação, para que no final possam se reunir e restaurar os laços.

Ao conhecer o projeto, Luíza logo sentiu no coração a vontade de acolher uma criança, porém veio o medo de não ser capaz. “Criamos uma expectativa que causa medo, insegurança e até mesmo a sensação de incapacidade. Porém fui muito bem acolhida pela equipe do programa. O processo todo foi bem esclarecido, a ponto de me dar a segurança e a certeza que é pra acontecer, que estou no propósito” conta ela.

O resultado não foi outro: Luíza passou pelas capacitações necessárias para acolher duas meninas, de 9 e 4 anos. Elas celebrarão juntas a Páscoa do próximo domingo (21). Para ela, não poderia haver jeito melhor de passar este feriado, do que promovendo princípios da renovação da vida, do perdão e de oportunizar uma segunda chance na vida. “Procuro dar o meu melhor aqui nessa minha existência. Vou me doando, porém sei recebo muito mais. Espero contribuir de alguma forma na vida de algum pequeno, ensinando a vida como precisa ser, resgatando ou incluindo valores que se perdem no caminho, dando visibilidade de oportunidades melhores e acrescentando esperança nelas”, detalha Luíza.

O “Família Acolhedora” se estabelece então, como bem mais que um programa de redução dos traumas causados pela convivência familiar. Trata-se de uma desconstrução de que a família nuclear é perfeita e que os laços de sangue desculpam qualquer mal feito. Ao mesmo tempo, o Programa não busca demonizar nem negligenciar os tutores originais da criança afetada, que frequentemente também foram criados dentro de ciclos de abusos e só reproduzem o que lhe foi feito.

O papel do “Partilhando Cuidado” é guiar todos os envolvidos pelo processo intenso, e muitas vezes doloroso, que é renovar laços que pareciam cortados para sempre. O grupo, constituído por psicólogos e assistentes sociais, detalha o processo de atuação em declaração escrita em conjunto; “Diante das dificuldades da vida, algumas famílias diminuem a habilidade de criar estratégias de enfrentamento com o objetivo de superá-las. Muitas delas não tiveram acesso à condições mínimas adequadas para exercer a função de proteção e cuidado com seus filhos. Nesse sentido, podem ocorrer situações de negligência, violência física e psicológica e até mesmo o abandono, prejudicando o desenvolvimento das crianças e adolescentes. Por conta dessas situações, elas são afastadas temporariamente de seus lares como medida protetiva de caráter excepcional, sendo encaminhadas para acolhimento institucional ou familiar”, explica Lorenna Batista, coordenadora do “Família Acolhedora”.

Ao mesmo tempo em que a família é inserida em vários serviços socioassistenciais da rede, articulando cuidados nas mais diversas políticas setoriais tais como: educação, saúde e habitação. A partir desse cuidado, percebe-se um fortalecimento da família de origem e um desenvolvimento de potencialidades e aquisições de forma que ela possa restabelecer os vínculos com seus filhos, superando um ‘ciclo vicioso’ vivenciado até então”, explica Lorenna Batista.

Entre os principais critérios, estão: residir em Teresina, ser maior de idade (com 21 anos ou mais), ter disponibilidade afetiva para cuidar de crianças ou adolescentes, não apresentar problemas psiquiátricos, não ser dependente de substâncias psicoativas e não responder a processo judicial. Os interessados podem entrar em contato pelo 3234-1652 e agendar uma entrevista. A sede fica no térreo da Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência Social e Políticas Integradas (Semcaspi) — localizada na Rua Álvaro Mendes, 861, Centro.“Acolher é de grande importância, pois além de fornecer um cuidado individualizado em um ambiente familiar, possibilita que a família de origem seja cuidada para superar suas dificuldades e dar continuidade a este cuidado. Estará em condições, por assim dizer, de fornecer a segurança e proteção necessários ao desenvolvimento adequado das crianças e adolescentes”, finaliza Michelly Lorenna, coordenadora do Família Acolhedora.

*Luíza Oliveira é um nome fictício para a personagem da história, que autorizou o uso da imagem, mas preferiu não ter o nome real divulgado.

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