A esperança parece ter voltado ao olhar de Daniel Sousa, de 28 anos. Ele, concludente de um tratamento da dependência de substâncias psicoativas na Fazenda da Paz, agora busca reiniciar a sua vida. Os passos para a reinserção na sociedade, sobretudo no mercado de trabalho, são curtos, lentos até. Porém, ele afirma que o que ele vem conquistando é o que dá forças para manter a luta contra a dependência química.
Assim como Daniel, cerca de 30 pessoas que terminaram o tratamento de vício em drogas ou mesmo em bebidas alcoólicas tentam recomeçar suas vidas através do Centro de Convivência “Retomando o Caminho”, o primeiro centro de reinserção para egressos de comunidades terapêuticas do Brasil, realizado em parceria entre a Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência Social e Políticas Integradas (Semcaspi) e a Fazenda da Paz. Com pouco menos de dois meses de funcionamento, o espaço já é referência para essa parcela da população, que se sente muito desnorteada ao concluir o tratamento, como testemunha Daniel. “Fiz um tratamento de um ano, e ao sair, fiquei meio acanhado. Quer queira, quer não, há um forte preconceito da sociedade. E aqui, aos poucos estou tomando um novo destino. Cheguei aqui tímido e hoje já me relaciono bem, com os colegas e com o pessoal administrativo da casa. Estou experimentando uma mudança de vida”, conta.
“Além dos cursos profissionalizantes que eu recebo, também partilhamos as experiências dos outros colegas, que me antecipam o que pode vir a acontecer comigo, na minha família, e na sociedade. Assim fico mais preparado para o que vier”, garante ele. O convívio entre os atendidos pelo espaço se dá através de grupos de partilha e ação, como o grupo que leva o nome da instituição, o “Retomando o Caminho”, que acontece às segundas e quartas-feiras; o grupo “Despertar”, que acontece às terças e quintas-feiras. Há ainda o “Reconstruindo os laços, sempre às quintas-feiras, voltado para as famílias dos atendidos na casa.
Em todos os dias da semana, de segunda à sexta, o espaço realiza também atendimento individualizado para os usuários. Porém, segundo a coordenadora do espaço, Andréa Bastos, o atendimento é feito somente para egressos de comunidades terapêuticas – vinculadas à Federação Norte-Nordeste de Comunidades Terapêuticas (Fennoct), com o devido documento de encaminhamento. “É importante frisar isso; às vezes chegam pessoas aqui na sede pedindo atendimento, até mesmo pedindo internações. Nosso trabalho é de acolher e ser essa referência para egressos de comunidades terapêuticas, bem como dos CAPS AD, CRAS, CREAS e de grupos de apoio, como a Pastoral da Sobriedade”, pontua a coordenadora do “Retomando o Caminho”.
Nesse espaço, os encaminhados tem acesso aos serviços de escuta qualificada, visitas domiciliares, atendimento psicossocial, palestras, reuniões visando o protagonismo social, ações socioeducativas, além de formação, capacitação e inserção produtiva ao mercado de trabalho, este último o principal objetivo do Centro de Convivência.
O objetivo do espaço é promover uma reintegração dessa população com outros públicos da sociedade e também inseri-los no mercado de trabalho. O Centro tem capacidade para receber até 80 usuários e, embora trate primordialmente de um espaço de reinserção e não de tratamento, o novo espaço, com equipe formada por psicólogos e assistentes sociais se faz presente para oferecer o suporte necessário no processo de encaminhamento ao mercado de trabalho não só do público-alvo principal – egressos de comunidades terapêuticas – mas também de toda a comunidade local atendida pela assistência social.
O secretário da Semcaspi, Samuel Silveira, destaca a importância do mais novo instrumento municipal de promoção da reinserção de concludentes do tratamento do vício de substâncias psicoativas na sociedade. “Encerrado o tratamento, o usuário não precisa mais retornar à situação de vulnerabilidade que vivia antes. Não precisa se tornar refém da ‘boca de fumo’ perto de sua casa, nem do bar a três quadras de sua residência, favorecendo a recaída. Hoje, pela Prefeitura de Teresina, essa cidade que é toda nossa oportuniza para a sua população esse espaço de perseverança para quem quer se manter livre das drogas. Para que o ‘não às drogas’ dado pelo concludente do tratamento seja mais forte, e para vida toda”, declara o secretário Samuel Silveira.

Inserção no mercado
Para proporcionar a profissionalização dessa população, a Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência Social e Políticas Integradas (Semcaspi) e o Centro de Convivência contam com a parceria da Fundação Wall Ferraz (FWF) na disponibilização de cursos profissionalizantes. “Eu estou fazendo o curso de Agente de Portaria, por intermédio do Centro”, diz Daniel, relembrando que voltou a estudar depois de muitos anos.
Além dele, outros atendidos no local também voltaram a estudar e buscar uma maior profissionalização. É o caso do Seu João Batista, que sempre teve habilidade para trabalhar com construção civil. “Além dessa habilidade, ele havia feito um curso de panificação, em uma comunidade terapêutica que ele passou, então ele tem essa formação também. Vamos percebendo as potencialidades de cada um e incentivamos o empoderamento deles. E agora, aqui no Centro, ele despertou para a necessidade de estudo e voltou a cursar o 4° ano do ensino fundamental, porque percebeu a importância da educação na vida dele”, conta a assistente social da casa, Veridiana Lustosa.
O espaço fica localizado na Rua Areolino de Abreu, 2137, na região central da capital. Para mais informações sobre os serviços do Centro de Convivência, a população pode ligar para o 3218-1592, ou pelo endereço eletrônico: centrodeconvivenciaretomandoocaminho@fazendadapa.org.


